Uma websérie criada por jovens moradores da região do Juquery lança um novo olhar sobre as obras expostas no Museu de Arte Osório César (MAOC) e sua relação direta com o antigo hospital psiquiátrico que deu origem à cidade de Franco da Rocha. Intitulada “Juquery Por Novas Lentes”, a iniciativa estreia em janeiro e busca aproximar a população da história artística, social e política do complexo, marcado por violações de direitos, mas também por experiências pioneiras em arteterapia.
O projeto é idealizado por Amara Hartmann, Paloma Rodrigues e Elielton Ribeiro, que cresceram na região e compartilham vínculos pessoais com o local. Segundo Amara, atriz e produtora, compreender o Juquery é também um processo de construção de identidade. “Depois da Lei Antimanicomial, o hospital foi desativado ao longo de mais de vinte anos, e desde então estamos tentando entender que lugar é esse e que marcas ele deixou na gente”, afirma.
O hospital psiquiátrico do Juquery foi inaugurado em 1898 e teve como primeiro diretor o médico Francisco Franco da Rocha, que posteriormente deu nome à cidade. Projetado por Ramos de Azevedo, o complexo ocupava cerca de 600 mil metros quadrados e, durante a ditadura civil-militar, chegou a abrigar mais de 14 mil pessoas, tornando-se símbolo de superlotação e violações de direitos humanos.
Paralelamente a esse histórico, o Juquery foi palco de uma experiência inovadora na área da arte e da saúde mental. Entre as décadas de 1950 e 1970, funcionou ali a Escola Livre de Artes Plásticas do Juquery, criada pelo psiquiatra, artista e crítico Osório César. O ateliê permitiu que internos do hospital se expressassem artisticamente, resultando em um acervo hoje reconhecido nacionalmente. Essas obras compõem o MAOC, fundado em 1985, fechado após um incêndio em 2005 e reaberto em 2020.
Para Paloma Rodrigues, o projeto dialoga com um movimento mais amplo de ressignificação da memória do Juquery. “É uma construção de nova memória sem apagar ou esconder o que o local foi, mas evidenciando uma parte fundamental da reforma antimanicomial, que foi a implementação do museu”, destaca. O espaço tem recebido, desde 2018, o festival cultural Soy Loco Por Ti Juquery, além de ensaios teatrais e outras ações artísticas.
A websérie conta com cinco episódios, realizados com apoio do Programa de Ação Cultural (ProAC) e da Lei Aldir Blanc. Os vídeos começam a ser exibidos a partir de 22 de janeiro, com lançamentos semanais até 19 de fevereiro, no canal da Romã Atômica Produtora. Todo o conteúdo possui legenda descritiva e tradução em Libras. Os episódios abordam desde a criação do hospital e do museu até o trabalho de arteterapia, a preservação do acervo e o papel do MAOC na atual discussão sobre saúde mental.
Entre os participantes estão a professora Heloísa Ferraz, que atuou no Juquery nos anos 1980, a museóloga do MAOC Michelle Guimarães e pesquisadores ligados à história do local. “Osório César abordava o trabalho dos pacientes dentro de uma ótica artística e estética, trazendo importantes nomes do modernismo. O ateliê desenvolveu em muitos pacientes uma possibilidade de expressão inigualável”, afirma Heloísa.
Além da websérie, o projeto promove o Curso Livre de Histórias das Fotografias no Juquery, que ocorre gratuitamente no MAOC entre os dias 16 e 18 de janeiro. A atividade discute séries fotográficas históricas produzidas no complexo ao longo do século XX e XXI, com nomes como Alice Brill, Claudia Andujar, Claudio Edinger e registros ligados ao Movimento da Luta Antimanicomial. O curso é ministrado pela professora Tatiana Fecchio e tem coordenação de Elielton Ribeiro.
A iniciativa também dialoga com o processo de digitalização do acervo do MAOC, que já conta com cerca de 500 obras fotografadas de um total estimado de 8 mil, ampliando o acesso da população local a esse patrimônio cultural.
Serviço
Websérie “Juquery Por Novas Lentes”
Exibição: 22/01, 29/01, 05/02, 12/02 e 19/02
Onde: Canal da Romã Atômica Produtora
Curso Livre de Histórias da Fotografia no Juquery
Datas: 16, 17 e 18 de janeiro
Local: MAOC – Av. dos Coqueiros, 441, Centro, Franco da Rocha
Inscrições: gratuitas, via formulário online





