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Venezuelanos estão perdendo peso porque não têm o que comer

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O ditador venezuelano Nicolás Maduro está colocando a população do país em dieta forçada. A combinação de políticas econômicas e sociais desastrosas e a hiperinflação – prevista para ultrapassar os 2.500% em 2018, segundo o Fundo Monetário Internacional – está fazendo com que o venezuelano coma menos.

Uma pesquisa sobre as condições de vida no país feita pela Universidad Católica Andrés Bello (UCAB) – uma das mais tradicionais e a melhor do país, segunda a QS World University Rankings 2018 -, aponta que 64,7% dos venezuelanos perderam peso no ano passado. Em média, foram 11,4 quilos perdidos. O fenômeno ocorre em todas as classes sociais. Só 7,2% aumentaram de peso, e o ganho médio foi 7,6 quilos. Os dados são da Pesquisa Nacional de Condições de Vida – Venezuela 2017 (Encovi, na sigla em espanhol).

Os venezuelanos estão perdendo peso porque estão comendo menos. A pesquisa feita pela universidade – onde estudou o líder oposicionista Henrique Capriles Radonski – aponta que 89,4% da população tem renda familiar insuficiente para comprar alimentos dentro e fora do lar.

Sete em cada dez pessoas não têm condições financeiras para comprar comidas balanceadas e saudáveis. E quase dois terços dos adultos reduziram a quantidade de comida nas refeições porque não havia dinheiro disponível. A mesma proporção afirma que dorme com fome.

A estimativa é que 8,13 milhões de habitantes, cerca de um quarto da população, coma duas ou menos refeições por dia. A dieta alimentar está se deteriorando e os mais afetados são os mais pobres. O padrão alimentar do venezuelano está centrado em arroz, farinha de trigo, milho e tubérculos. O consumo de frutas e hortaliças caiu drasticamente de 2016 para 2017, aponta a pesquisa da UCAB.

A conclusão da pesquisa é de que a forma como o venezuelano come está perdendo tanto em qualidade quanto em quantidade. As fontes de ferro e outros nutrientes estão cada vez mais escassas, por causa da redução no consumo de hortaliças, frutas e farinha de trigo não enriquecida.

O aporte de proteínas de alto valor biológico – como o zinco, ferro, vitaminas A e do complexo B – também está diminuindo. É uma dieta que favorece a anemia, ressalta a pesquisa.

Outro problema enfatizado pelo levantamento da UCAB é a drástica redução no consumo de leite e seus derivados. “Os poucos que existem, podem não ser de boa qualidade, com uma reduzida composição de proteínas, cálcio e ácidos graxos”, aponta o relatório do levantamento.

Um país em pobreza extrema 

 A deterioração da situação alimentar do venezuelano é um reflexo da acentuação da pobreza do país, que atinge 87% dos lares e vem ganhando força nos últimos anos, à medida que a inflação aumenta. Em 2014, 48,4% da população era considerada pobre. “A inflação é um imposto social perverso, atingindo a classe trabalhadora”, diz Masimo della Justina, professor do Departamento de Economia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).

O número de domicílios em situação de pobreza extrema quase triplicou em três anos. Segundo a pesquisa da UCAB, em 2014, era 23,6% da população. Em 2017, 61,2%. O problema é maior nas pequenas cidades do interior.

A pesquisa faz um alerta: “Se se mantém o empobrecimento como até agora, o peso dos que empobreceram mais recentemente será menor, o da pobreza crônica maior e, em consequência, custará muito mais aos lares para sair da pobreza.”

Della Justina aponta que o empobrecimento do país aliado à hiperinflação pode contribuir para a deterioração da situação política. “Quando o preço dos alimentos, da cerveja e do papel higiênico sobe muito acaba por mexer no psicológico das pessoas. São atingidos os instintos básicos de sobrevivência.” Com isso, destaca ele, a chance de as pessoas irem às ruas para protestarem cresce. “É um comportamento de manada, um puxa o outro.”

Migração

Outro reflexo da deterioração das condições sociais na Venezuela é o crescimento da emigração para outros países. A empresa de análises Consultoria 21 estima que a diáspora venezuelana supere os 4 milhões de habitantes, mais do que a população de alguns dos principais Estados daquele país.

A pesquisa da universidade venezuelana aponta que, em média, houve 1,3 pessoas por domicílio que saíram da Venezuela entre 2012 e 2017, o que corresponderia a, aproximadamente, 815 mil pessoas. A maioria dos emigrantes é da Grande Caracas e das principais cidades. Metade desses lares onde houve gente que se mudou para o exterior é das classes média e alta. Só 12% pertence à população mais pobre.

Dois terços das pessoas foi buscar emprego ou encontrou ocupação no exterior. A maioria é de homens. 88% tem idade entre 15 e 59 anos, ou seja, em idade para trabalhar. Os principais destinos são Colômbia, Panamá, Chile, Argentina, Peru e Equador. É um perfil mais qualificado. Metade dos emigrantes tem o curso superior completo.

Outro retrato do problema da migração são as centenas de venezuelanos que chegam diariamente às fronteiras com o Brasil e a Venezuela. Em Pacaraima (RR), a situação é crítica. A região vive um surto de sarampo, que foi trazido por venezuelanos. A doença tinha sido erradicada do Brasil em 2015.